• 24 de janeiro de 2020

    Será que meu problema é importante?

    – Eu não sei muito bem o que te falar… isso está me incomodando um pouco.

    – O que te incomoda nisso?

    – Bem… não sei ao certo… eu deveria ter algo para trazer.

    – Acredito que você tem, afinal de contas está aqui não?

    – Mas o que pode ser? Não vejo nada mesmo.

    – Sim. Este é o tema. “Não tenho nada para falar”. Isso, em si, já é um tema. Agora, eu me pergunto: o que será que você chama de “nada”.

    – Bem… eu até penso em umas coisas, mas não acho que são para cá.

    – Porque não comenta e decidimos juntos o que pode ou não ser relevante?

    A relação terapêutica, longe de ser neutra é uma ferramenta de trabalho do psicólogo. Os sentimentos que o paciente nutre em relação ao terapeuta são importantes em serem comunicados tais como os dele por qualquer outra pessoa. Os sentimentos do terapeuta também são fonte de conhecimento e evolução. Quando a relação terapêutica cresce, ambos envolvidos crescem também.

    Seres humanos são animais relacionais. Isso significa que, em nossos genes, está escrita uma estrutura de corpo que busca, deseja e precisa de contato e interação. A relação terapêutica não é diferente das outras relações que temos. Os mesmos sentimentos que criamos com outras pessoas é possível de ser criado na relação com o terapeuta. Medo, amor, raiva, culpa, ansiedade são sentimentos comuns de serem vistos em um processo psicoterápico. O surgimento destas emoções tem a ver com a maneira pela qual as pessoas se relacionam e é de fundamental importância para o psicólogo.

    Uma das emoções que aparecem com frequência é a ansiedade ou medo, advindos do desejo de ser aceito pelo psicólogo. Quando as pessoas começam a se abrir mais em terapia, é comum que surja a pergunta: meu/minha terapeuta se importa comigo? É o desejo natural de pertencimento, de reconhecimento do seu próprio valor. Uma terceira emoção que é possível neste mesmo cenário é raiva. Neste caso, em geral a dinâmica envolvida é que a pessoa sente que “se abriu demais’, por isso fica com raiva do terapeuta que “a fez” abrir-se tanto assim. No fundo, a raiva apenas protege a pessoa de seu medo de abrir-se.

    Uma dinâmica é muito interessante neste contexto todo. Com o intuito de ser aceito pelo (a) terapeuta, a pessoa começa a tentar trazer problemas muito sérios e complicados. Ela começa a desejar “produzir” conteúdo. Ou seja, passa a fazer uma avaliação daquilo que pretende trazer para a sua terapia julgando cada elemento como “importante” ou não. Em geral, isso é um tiro que sai pela culatra, pois, no momento em que a pessoa está se abrindo ao ponto de sentir a necessidade de ser aceito pela (o) terapeuta, ela já não está com problemas graves. Em geral, neste momento, se trata de níveis mais sutis, porém intensos.

    Diminuir o valor daquilo que temos para falar é uma dinâmica que pode vir desde o primeiro dia de terapia, no entanto. Muitas pessoas tentam trazer “algo sério”, mas esquecem que basta trazer o essencial. E isso podem ser coisas “pequenas” e simples. O que importa não é o tamanho do problema e sim sua função dentro da psique da pessoa. Vale lembrar que existe uma diferença grande entre um problema situacional, ou seja, algo que está acontecendo neste momento como a morte de alguém (o que seria “algo grande) e problemas estruturais, ou seja, a maneira pela qual a pessoa vive sua vida. Este segundo pode ser um “problema pequeno”, mas é o essencial.

    Nós humanos somos compostos destas duas realidades: aquela vivida em um mundo compartilhado e aquela à qual apenas nós temos acesso. Ambas são importantes. Se uma questão se mostra realmente irrelevante em uma terapia, ainda assim ela nos tem serventia. Pode ser que sirva como uma fuga de algo mais importante ou como preparação para algo mais importante. Neste contexto, poucas coisas são mero acaso e, quando a pessoa está realmente melhorando, é comum e desejado que ocorram sessões “calmas”, para relatar algo bom acontecendo. Estas são muito importantes para trabalhar a questão da confiança e conquista pessoal. Não tenha medo de que seu conteúdo “não é bom o suficiente”, se ele apareceu, de alguma maneira é relevante.

    Abraço

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