• 4 de abril de 2016

    Prisão invisível

    Buscar sempre a excelência, ser melhor, buscar a qualidade são motes importantes. Eles nos fazem vencer desafios, descobrir novas formas de agir e de resolver problemas e elevam a qualidade de vida, mas quando isso pode ser tornar uma prisão invisível e nos causar problemas que não conseguimos ver?

    A ciência se empenha em compreender o mundo. Ao contrário do que se pensa ela não busca a “verdade”, pois isso significa encalhar em dogmas – verdades inquestionáveis – e este tipo de verdade é inimiga da ciência. Assim o que ela busca? Busca sempre por uma maneira ainda melhor, mais simples, mais perfeita de perceber o mundo o qual está em constante mudança, fato que torna a busca da ciência sempre uma busca incompleta.

    O mesmo ocorre com a excelência e com a qualidade. O mundo assim como os seres humanos estão em contante mudança, esse fato faz com que seja necessário que ela seja sempre vista e revista. A qualidade oscila, muda, varia de acordo com o que está disponível e com aquilo que desejamos enquanto qualidade. Os vinhos são um bom exemplo disso. Toda vinícola preza por um padrão de qualidade, porém este padrão está diretamente ligado ao clima, pois este influencia a qualidade das uvas daquele ano. Nesse sentido não há como o vinho de um ano ser igual ao de outro ano, podem ser semelhantes, mas cada safra é uma safra.

    Toda esta explanação para afirmar a seguinte proposição: manter a qualidade nem sempre significa fazer tudo igual, com o mesmo resultado. Podemos ter isto quando todas as variáveis para que isso ocorra estão iguais, porém, no esfera humana isso raramente ocorre. Uma noite mal dormida afeta nosso desempenho, brigas conjugais, tédio e até o clima pode nos afetar.

    Assim, quando estabelecemos padrões  rígidos daquilo que é e daquilo que não é “excelência”, estamos, também invalidando o que há de humano em nós. Particularmente busco pela excelência em praticamente tudo o que eu faço, não busco em tudo, porque me permito ter áreas em que não sou excelente, mas sim que sou “menos” que outra pessoa, que não sou tão competente e que tudo o que preciso fazer é seguir outra pessoa, aprender com ela e admirar o seu desempenho.

    Se isso parece estranho para você, talvez possa pensar em porque precisamos ser bons em tudo, superiores em tudo? Que competição é esta? A origem disso está em pensar que somos apenas aquilo que desempenhamos. É neste momento que a busca pela excelência se torna uma prisão invisível. Se só podemos “ser” quando “fazemos” algo, o desempenho não se torna uma fim e sim um meio.

    A fórmula seria “desempenho perfeitamente, logo sou”. Ora, somos enquanto falhas, perfeição, ação e falta de ação. A expressão daquilo que o ser humano é não se restringe à quão bom foi o seu resultado, mas envolve todos os resultados. Além disso, envolve situações e ações que não precisam ser medidas no sentido do desempenho: qual o desempenho do riso? Do perdão? Do bem-estar? Isso é para ser medido e qualificado? Para que medir o deleite em apreciar os sabores e cheiros de um bom vinho ou das cores de um pôr-do-sol?

    Nossa sociedade tem se tornado cada vez mais burocratizada e busca regulamentar tudo o que é possível. Esse ideal esquece-se, porém de que nem tudo pode ser prescrito e que, nesse momento, é com o que há dentro da pessoa que ela responderá. As surpresas fazem parte da vida, o bom desempenho ensina tanto quanto o mal desempenho, aquilo que não busca por desempenho faz tanto parte da vida quanto o que busca.

    Quem é você, além daquilo que faz e desempenha?

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