• 24 de março de 2021

    Resolvendo problemas

    “Resolvendo problemas” – sobre nossa necessidade em ficar resolvendo problemas e como isso pode nos prejudica

    – Eu não consigo relaxar.

    – Você não quer, é diferente.

    – Como assim, não quero? Eu sei que isso vai ser bom para mim.

    – E porque será bom?

    – Eu vou ficar mais focado nos estudos, vou trabalhar e me concentrar melhor.

    – Viu como você não quer relaxar?

    – Como não?

    – Você quer: ficar mais focado nos estudos, trabalhar e se concentrar melhor. Objetivos nobres, sim, mas diferentes de relaxar.

    – Mas… é… eu quero isso sim… mas relaxar não leva à isso?

    – Pode ser que sim, pode ser que ao relaxar você também perceba que quer fazer outras coisas com a vida ou que simplesmente quer ficar um pouco sem fazer nada. E aí?

    – Ah… ficar sem fazer nada não dá né? Vou ficar lá… parado à toa?

     

    Tendemos a nos identificar com nossa mente. E ela é ótima, resolve muitos dos nossos problemas nesta vida. Porém o modus operandi da mente requer problemas para serem resolvidos, coisas para fazer o tempo todo, ela quer estar “em atividade”. Quando nos confundimos com isso, boa parte de nossa vida fica perdida e desvalorizada.

    “O tédio é uma invenção moderna”. Não sei ao certo qual foi o autor que disse isso, mas esta frase é profunda em significado. O tédio é uma emoção que nos diz que algo deveria estar ocorrendo, mas não está. Nos sentimos chateados, como que “perdendo algo” que não sabemos o que é. Porém, esta emoção também aponta, muitas vezes, para a falta de contato da pessoa para com ela mesma. “Algo não está ocorrendo” foca a atenção fora de nós, ela desvia a atenção daquilo que está acontecendo. E o que está sempre acontecendo? Nós.

    A vida está sempre ocorrendo em nós, isso não é uma questão de escolha. Mas se nos atentamos para isso ou se permanecemos desejando que algo ocorra, isto sim é uma escolha. Há uma história, Buda, reunido com seus discípulos, pegou uma flor. Kashyappa olhou para ele e sorriu. Foi o único que compreendeu o significado daquele gesto. Qual o sentido da vida? A mente procura por “sentidos”, o corpo no qual a mente reside não. Quando nos identificamos apenas com a mente, precisamos disso, quando vemos além dela, assumimos outro compromisso com isso.

    Então perceba, não se trata de abrir mão de crescer profissionalmente, de fazer e buscar coisas interessantes para fazer, mas de saber que isso não é o mais importante. Isto é apenas uma parte da história. Simplesmente estar com você, sem fazer nada, apenas sentir o fluxo da vida através de você. Sem problemas para resolver ou metas à alcançar é assumir, também, outro estado da vida. É entrar em contato com uma parte de nós que não precisa de sentidos, de metas, de objetivos para ser, ela é muito maior do que isso, pois ela simplesmente “é”.

    Podemos passar uma vida toda correndo apenas atrás de problemas para resolver, ou também podemos entrar em contato com isso que é alheio à este universo, mais amplo que este universo de “problema-solução”. Contemplar, mas não contemplar “algo”, apenas contemplar o que “é” em nós. Modernos e pós modernos tem dificuldade em lidar com isso, pois toda a nossa identificação está baseada em coisas externas à nós como trabalho e entretenimento.

    Mas mesmo sem tudo isso a vida continua fluindo e acontecendo. Ela não liga para isso. A flor não precisa saber se ela tem um sentido ou não para florescer e soltar seu perfume no ar. Nós também não. A mente, uma parte importante de nós precisa e é bom e útil ter isso, mas não ficarmos presos à isso, pois a mente nasce desta parte maior. Ela é um fruto e não a árvore. Conceber que nossa mente resolvedora de problemas é apenas o fruto de uma árvore muito maior e mais complexa nos ajuda a relaxar em nossa experiência de estarmos vivos ao invés de buscar alguma experiência lá fora.

     

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