• 20 de janeiro de 2021

    Mas comigo não funciona!

    – Mas só comigo que não dá certo!

    – O que acontece?

    – Eu fiz como falamos, mas na hora não deu certo. E eu sei que fiz tudo certo.

    – Entendo, qual foi o resultado?

    – Ah, minha mãe ao invés de me ouvir ficou reclamando de mim.

    – Sim. E como você se sentiu com isso?

    – Me senti rejeitado, como sempre.

    – Perfeito, o que será que temos que trabalhar ainda mais para melhorar a comunicação?

    – Ah não sei… não entendo porque ela não consegue me ouvir.

     

    A comunicação humana é um fenômenos muito complexo. Em geral, atribuímos imenso valor às palavras, acreditando que tudo o que precisamos é uma boa dose de lógica, palavras “certas” e argumentos bem montados. Porém inúmeros pesquisadores já demonstraram um fato: na comunicação o que realmente manda são as emoções.

    Este é um dos motivos pelos quais tantas pessoas munidas – de fato – com ótimos argumentos, frases bem estruturadas e uma ótima intenção não conseguem “convencer” alguém sobre algum argumento. Ocorre que existe, sempre, um fator emocional envolvido ao qual quase nunca prestamos atenção. Este é um fator tão sutil que não é levado em conta, porém sua presença determina algo que a lógica não percebe: o tom com o qual conversamos com alguém.

    Este “tom” é experienciado na vocalização da palavra, nos gestos que a pessoa faz ou não faz e, principalmente, na expectativa inconsciente do resultado daquela comunicação. Um cliente com quem trabalhei era uma ótima pessoa, com ideias muito boas que eram sempre batidas por um “adversário” no local onde ele tinha emprego. Meu cliente, embora tivesse boas ideias, tinha outro fator: ele desejava desesperadamente aprovação de suas ideias. Na comunicação com seus pares, este desejo acabava criando uma sensação de desconfiança em relação ao que meu cliente dizia.

    Soube disso porque assim que ele aprendeu a tomar conta de seu desejo por aprovação, mudou sua maneira da falar. Agora ele não queria mais que seus colegas aceitassem e aprovassem sua ideia. Ele se dirigia à essas pessoas detentor de um conhecimento e realmente convicto de que o caminho a seguir era aquele que ele apresentava. Não tinha mais as dúvidas oriundas da necessidade de aprovação. Seus colegas começaram a dizer isso para ele: “agora dá para sentir firmeza no que você fala”.

    “Sentir firmeza”, ora, isso nada tem a ver com as ideias – que  eram as mesmas do começo ao fim da terapia dele – mas sim com este sentimento interno que meu cliente tinha sobre si. Ele era uma boa pessoa e queria que os outros vissem isso nele. Quando conseguiu aceitar-se como uma boa pessoa e fazer coisas boas para si, conseguiu, enfim dar outra ênfase à sua maneira de se comunicar. Então veja que não é um processo de “me diga como faz para ter esse jeito de falar”, mas, sim, uma verdadeira mudança de atitude interna em relação à quem você é.

    Muitas pessoas que “não dão certo” possuem exatamente esse problema. Não se trata de uma competência a qual elas buscam desesperadamente fora de si, mas sim, de perceber a fragilidade interna que já possuem e de aprender a cuidar disso. Este cuidado permite que elas sintam-se seguras em relação à quem são e com isso a comunicação muda. Nem é preciso esforço em mudar palavras, porque o que realmente importa, neste caso, é a emoção com a qual as palavras são ditas.

    Abraço

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